Mensagem do pároco › 16/06/2016

Conversa de Padre – Cadê a Missa?

segurando-rosarioEncontramos na Constituição Sacrosanctum Concilium Sobre a Sagrada Liturgia no número 17 o seguinte: “Nos seminários e casas religiosas, adquiram os clérigos uma vida espiritual informada pela liturgia, mediante uma conveniente iniciação que lhes permita penetrar no sentido dos ritos sagrados e participar perfeitamente neles, mediante a celebração dos sagrados mistérios, como também mediante outros atos de piedade permeados do espírito da sagrada liturgia. Aprendam também a observar as leis litúrgicas, para que a vida dos seminários e institutos religiosos se impregne totalmente de espírito litúrgico.”

Preciso perguntar porque de tais leis e rubricas? Seriam elas apenas enfeites opcionais para celebrar os Sagrados Mistérios? Estaria a Igreja dando algumas sugestões ou ideias para ajudar na celebração dos Mistérios da Salvação? Se a resposta for sim, então precisaríamos voltar aos nossos estudos Teológicos e confirmar o escandaloso erro que vem sendo cometido das diversas interpretações da Renovação Litúrgica, proposta pelo Concílio Vaticano II. A impressão que tenho algumas vezes é que nunca foi lida a Constituição sobre a Liturgia e usou-se apenas a palavra Renovação como pretexto para os maiores absurdos litúrgicos que encontramos em diversos lugares. Como a Igreja está renovando vamos então empurrar para debaixo do tapete aquilo que nos parece desnecessário e junto empurramos o sentido do mistério celebrado em muitas liturgias por aí. Quando desaparece o Sagrado aparece o teatro e a mesma peça encenada tantas vezes acaba por cansar a plateia. Sem o Sagrado que fala, fica a teatral cena, ora embalada por berrantes e quadrilhas, ora por danças e jograis. Parece que se incultura de tudo, menos o sacrifício de Jesus Cristo celebrado em forma de ceia Pascal.

Escutei muitas discussões afirmando que a missa é sacrifício e que a missa é uma festa.  Rezamos assim: “Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para glória do Seu Nome, para nosso bem e de toda a santa Igreja”. Em todos os documentos da Igreja a missa sempre é o Sacrifício. Qual sacrifício? De Nosso Senhor ao Pai. Sacrifício Incruento, ou seja, sem derramamento de sangue ou dor. É certo pensarmos que no pão e vinho da santa ceia, Jesus realiza seu sacrifício do Calvário. É verdade também o fato de que em todas as missas a Santa Ceia é o Calvário de Nosso Senhor. Ali, através do Padre, Jesus é oferecido ao Pai nas espécies de pão e vinho para a salvação do mundo. Em todas as missas acontece o sacrifício de Nosso Senhor. O padre oferece ao Pai, Seu Único Filho Nosso Senhor, que nos altares do mundo diz ao Pai: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”. Estamos felizes pela Salvação nos dada em forma de banquete ou ceia, mas contritos ao participar do Sacrifício de Jesus Cristo ao Pai pelo mundo. Poderão dizer que o sacrifício já foi feito no passado, mas é aí que entendemos a beleza da Liturgia celebrada. Nos ritos sagrados, onde acontece o mistério da transubstanciação, O Filho se oferece ao Pai e o Calvário se faz presente de forma incruenta.

A Renovação Litúrgica do Concílio nunca jogou para debaixo do tapete tão grande sacrifico dos altares. Não é certo deixar em segundo plano aquilo que é o centro de toda celebração Litúrgica. Não é certo acobertarmos o essencial enfeitando o Calvário com tantas coisas que não nos faz vivenciar o que realmente o rito faz acontecer.

Em coro muitos dizem: “Ele não está mais na cruz, pois ressuscitou”. É esta a afirmação mais usada para fazer das missas apenas banquete de festa e nunca sacrifício do Calvário. Claro que é uma verdade tal afirmação, mas parece que esquecemos as palavras do Senhor que tanto repetimos nas missas: “Este é o meu corpo .. Este é o meu sangue..” O corpo e o sangue são oferecidos na missa e oferecido como? Como sacrifício. Entregue ao Pai como sacrifício por nós. Jesus está vivo e ressuscitado e nos alegramos e proclamamos a sua ressureição em todas as missas. Ressuscitou aquele que se ofereceu ao Pai. Na Liturgia o Ressuscitado se oferece através do Padre ao Pai nas espécies de pão e vinho e o Calvário se faz presente. O Papa João Paulo II afirma que toda realidade do calvário está presente. Jesus se oferece ao Pai e oferece sua Mãe à humanidade em todas as missas.

Eu entendo as muitas discussões dos ditos conservadores e progressistas quanto a Liturgia de nossas missas. Não entendo, porém, as missas repletas de componentes que apagam ou obscurece o que Jesus Cristo faz e como faz na santa ceia. Muito bom que os padres tenham muitos dons, mas é triste quando o povo lembra que o padre dançou bem, cantou bem, preparou bem a dança pelo corredor ao trazer a bíblia ou alguma oferta e se perguntar: viu como ele rezou a consagração vivendo o sacrifício de Nosso Senhor? E o povo pensar: “uai, que sacrifício? Foi uma festa a missa… estava linda sim e todos alegres e fomos felizes embora de tão festivo que foi”. Que bom que foram felizes e alegres embora, mas o motivo não deveria ser as festividades das danças, da animação do padre e nem dos batuques ou berrantes. A alegria deveria ser por outro motivo concreto embora eterno, visível embora piedoso, vislumbrado sem ser encenado. Que alegria a de um povo que vai embora ao acabar a liturgia com a impressão de que seu Padre estava com Nosso Senhor no Calvário enquanto oferecia ao Pai o pão e o vinho por eles ali na missa. Quando não se tem mais tal dimensão da missa então precisamos encher de tantas outras coisas que pode ser tudo, menos Liturgia Sagrada.

Ao me perguntarem o que seria preciso para viver uma missa assim eu responderia apenas uma coisa: “Acreditar”. A Igreja já nos ensinou, em suas cartas e documentos, em que acreditar. Se me disserem: “Mas todos padres acreditam”. Eu volto ao que expus acima: “Acreditam na Renovação Litúrgica do Concilio Vaticano II ou correram o risco de ficar só na palavra Renovação? Papa Bento XVI falava de uma real renovação proposta pelo Concilio. Nós somos pecadores mas a Igreja do Senhor não. Dizia Santo Agostinho: “Vacilará a Igreja se vacila o seu fundamento, mas poderá talvez Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá intacta até o fim dos tempos” Podemos até não interpretar ou não entender a moção do Espírito, mas a Igreja, que não vacila, tem este Espírito Santo e Ele irá clarear o caminho certo da proposta conciliar. Bento XVI considera que o Vaticano II é mal interpretado: “Os problemas da recepção do Vaticano II nasceram do fato que duas hermenêuticas contrárias se acharam em confronto e discutiram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente, mas sempre mais visivelmente, trouxe e traz frutos”.(Bento XVI, Discurso à Cúria, em 22 de Dezembro de 2.005). Uma dessas interpretações Bento XVI chamou de Hermenêutica da descontinuidade e da ruptura. O que Bento XVI afirma é que os adeptos desta hermenêutica da descontinuidade propõe a ruptura da Igreja pré conciliar e pós conciliar (Bento XVI, Discurso à Cúria, em 22 de Dezembro de 2.005).

Com grande tristeza achamos em alguns lugares esta ruptura, como que se tudo o que a Igreja acreditou e celebrou fosse apenas modismo de épocas. Jogamos a riqueza dos santos padres fora, assim como o mais profundo espírito cristão litúrgico da santa missa para debaixo do tapete ao ignorar a Igreja de Jesus Cristo em toda a sua historia e querermos fazer uma Igreja a partir do Vaticano II, como se nada antes tivesse valor. Nossos santos homens e mulheres, nossas mais profundas convicções do mistério celebrado foram acobertado por um ritual sem sinais e sem piedade cristã em muitos lugares. Uma nova hermenêutica que rompeu com a Tradição em nome de uma Renovação falsa, que não é a proposta conciliar, nunca poderá silenciar ou acobertar a Sagrada Liturgia de modo definitivo. Também eu, padre fruto de tal hermenêutica, ando engatinhando em busca do Sagrado Mistério celebrado por toda Tradição Católica e não negada pelo Concílio Vaticano II, mas que entre mim e o Sagrado Mistério foi colocado muitas ideologias no lugar de Teologia. Tais ideologia falarei em outra oportunidade.

Que nossas comunidades possam celebrar com dignidade os Mistérios da Salvação. Se alguém pensar ou me perguntar se tal coisa é realmente importante eu diria que é esta a missão do Padre. Como diz um bispo do Nordeste: “cuidar do mico leão já tem gente pra isso. Somos padres e fazemos o que ninguém pode fazer”. Eu acrescentaria: se não faço como deveria aí sim o mico leao dourado fica mais importante e certamente vou até oferta-lo na procissão da missa, dando lugar a ele e não a quem importa realmente.

Pe. Antonio Celso de Morais

5 respostas para “Conversa de Padre – Cadê a Missa?”

  1. edenilson disse:

    O senhor esta coberto de razao,as missas devem ser e são em nossa paroquia o momento de refletir e vivenciarmos quando nosso pai foi misericordioso para conosco, nos mandando seu unico filho para a salvação dos nossos pecados. Abrindo nossos olhos e nos alertando para seguirmos as escrituras e ensinanentos para assim. Se formos merecedores . Alcançarmos a vida eterna. Atraves da santa eucaristia,comunhão,que esses tao importanres sinais nunca se perca.

  2. Elizete Bueno disse:

    Sábias palavras Padre Celso, parabéns, concordo com o senhor, hoje com essa tal renovação muitas missas o povo vai mais pra assistir e não pra participar ,pode ate ser linda maravilhosa mais a mim não acrescenta muita coisa pra minha vida .Adoro participar da missa que o senhor celebra pois suas homilia são pra mim uma verdadeira catequese, suas palavras me faz refletir ,pensar onde errei e como posso mudar,quando termina uma missa sempre volto pra casa com muitas resposta e são elas que me ajudam no meu dia a dia ,me ajudam a enfrentar as tribulações que encontro durante a caminhada.Muitas vezes eu paro e olho pra traz quanta coisas eu aprendi durante todo esse tempo e ainda sei tão pouco, estou ainda engatinhado na fé ,imagina se todo esse tempo eu fisese parte apenas de missa como muitas que estão sendo renovadas o que eu teria aprendido? Tinha saído dessas missas alegres ,mais não é isso que procuro para o meu crescimento ,quero sair com a cabeça quente mesmo sabendo que a palavra me tocou me fez pensar no meu pecado ,só assim eu posso dizer que estou crescendo ,pra mim a liturgia tem que ser tradicional,sou daquela que pede a benção para o padre assim aprendi com meus pais e assim passei pros meus filhos .Que Deus continue te abençoando cada vez na missão de levar o evangelho a todos nós que precisamos conhecer sempre mais de Deus…

  3. Ronivaldo Tavares disse:

    Muito bom o texto

  4. Ana Aguiar disse:

    Padre gostei do que li. Fácil ver a diferença tão bem explicada nas suas palavras. Agora se tiveram a mesma formação não teria que ter um consenso, pra nós simples leigos sabermos que ao participarmos da Santa missa, estamos participando do sacrifício incruento do Nosso Senhor? Acreditamos tanto na igreja através dos nossos padres que não pomos em dúvida seus ensinamentos. Será que estamos errados?

  5. Gisele Vilela disse:

    Adorei! ótima carta….

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